segunda-feira, 22 de maio de 2017

Asas da arte da perda

Após a duras penas aprender a arte da perda
Liberto meu espírito à dança das borboletas.
Alada, livre de meu casulo,
com a fome de viver das asas de vida breve,
ponho-me, como lua, ao mergulhar no anoitecer escuro
do mar de aura leve
com a transcendência que além da filosofia mora.
E então, renasço como aurora.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Moro em uma cidade de pianos desafinados

Moro em uma cidade de pianos desafinados
Ruas esburacadas
Mesmo com praias de boas-vindas
E algumas coisas lindas.

Moro em uma cidade de pianos desafinados
Desigualdade por todos os lados
Os esforçados pianos públicos desafinam em um Mi de agonia
E até os arrumados pianos da burguesia
Desafinam em um Lá de realidade em desarmonia

Moro em uma cidade de pianos desafinados
E até, em certo dia, toquei em um hospital
Mesmo alegre pelo som dos aplausos
O piano eclodia uma rebeldia quase brutal:
Além da desafinação em quase toda a sua extensão,
era impossível tirar som do dó central.
O Dó lembrava do grito silencioso da dor
daqueles aos quais, sem dó,
não foram concedidas condições para se tratar ali
mesmo que a dor seja tão universal quanto a condição humana em Si. 

Por fim, percebi,
que moro em um piano,
que uns teimam em chamar de mundo,
cujas cordas foram desafinadamente afinadas
em pressões desiguais e que, por vezes, se recusam a rimar.
Um piano com algumas esburacadas teclas quebradas
em uma bela cidade desafinada.

domingo, 31 de julho de 2016

Um conto de relacionamento musical

Em um dia pálido e chuvoso Nannerl acordou com apenas uma certeza acerca de seu estar-no-mundo: estava completamente sozinha. Pode-se dizer que uma série de acontecimentos e situações a levaram ao sentimento de profunda solidão mundana. Porém, o motivo mais cruel e crucial para tanto foi que, em uma viagem de negócios, seu pai havia sido explodido em uma acidente de avião do outro lado do planeta. Além de perder seu maior amor, seu único parente vivo e a única pessoa que ela sabia que a amava incondicional, Nannerl também perdeu toda a qualidade de vida que conhecia até então: para poder continuar seus estudos, teve que vender a casa, os móveis, os quadros valiosos e até seu querido violino Guarneri.
Ela até tentou voltar a tocar no pequenino violino barato que ganhara quando começou a aprender, mas, por mais que ela tocasse as notas, a música não saía mais como antes. Não tinha mais alma no seu toque e sua música soava como um texto construído com palavras soltas, sem nenhum significado. A culpa não era da qualidade do violino, mas de seu próprio espírito que tinha se fechado para o mundo. Ela não conseguia mais expressar qualquer tipo de emoção. 
Nannerl, então, seguiu o conselho da maioria das pessoas: depois de algum tempo trabalhando em cargos pequenos e estudando, conseguiu passar em um concurso muito bom. Logo, sua vida voltou a ser financeiramente confortável: comprou uma bela casa, podia viajar para onde quisesse, doava dinheiro para a caridade e tinha ao seu dispor todas as benesses de uma vida de classe média alta. Porém, bastava olhar para o seu rosto para ver que ela não estava feliz; seu olhar era apático, sorria apenas por conveniência social e evitava conversas longas. Em qualquer lugar do firmamento, apenas bastava a visualização de um violino para que uma facada de saudade atravessasse seu coração, mas julgava que tinha perdido toda a sua habilidade.
Alguns anos passaram e em uma festa foi apresentada a um nobre que trouxera um violino Stradivarius. Tal nobre o herdara e o tocava apenas razoavelmente. Os olhos de Nannerl brilharam, pois há muito tempo não via um violino tão raro em tamanha proximidade física com ela. Um antigo colega de faculdade insistiu para que ela tocasse, pois ele sabia que a Nannerl de antes jamais deixaria passar tal oportunidade. O nobre, herdeiro do violino, e todos os que se lembravam de sua  antiga paixão ao violino também se somaram ao pedido.
Nannerl, a priori, argumentou que por ter passado tanto tempo sem nenhum treino, provavelmente já não sabia mais tocar direito. Todavia, algum ímpeto a invadiu e o lado violinista que lhe restava implorou para que tocasse aquele artefato histórico. Cheia de borboletas em seu estômago, sentindo-se como uma refugiada que tentava voltar a escrever em sua língua natal depois de uma vida inteira falando e escrevendo em outro idioma, Nannerl tocou a primeira nota a esmo e se maravilhou pela audição de uma nota tocada por ela mesma, em um instrumento de sonoridade tão deliciosa. 
O estado de maravilhamento foi tão poderoso que ela foi completamente dominada pela Nannerl adormecida que amava mais a música do que a própria vida. Ela começou a tocar uma música composta por todo o seu eu interior. Mesmo estando inteiramente afastada dos estudos de harmonia e teoria musical, sua música tinha a perfeição formal e harmônica de Johann Sebastian Bach, apenas ao seguir o seu instinto. De olhos fechados, ela passou a expressar com a linguagem abstrata da música tudo o que há tanto tempo estava preso nela. Tocava com a impetuosidade de um Ludwig van Beethoven, a verdade de um Chico Buarque, a graça de uma Chiquinha Gonzaga, a genialidade de um Niccolò Paganini. Apesar de seus dedos, de fato, já estarem desacostumados com a técnica violinística, aquela emoção que demorou tanto tempo para conseguir ser expressada a tomou de tal modo que parecia que seus dedos ainda tinham a destreza de quando treinava todo dia e soava como se Jascha Heifetz, Christian Ferras e Rachel Barton Pine tivessem se unido e possuído os seus dedos, depois de um workshop no paraíso dos anjos violinistas que ultrapassaram as técnicas conhecidas pelos homens e que agora tocavam com as técnicas desenvolvidas pelos seres imortais. 
Havia momentos em que aquela música apalpava Nannerl com a delicadeza da interpretação de Claude Debussy e momentos onde ela era conduzida com a quase violência de um Apocalyptica. Era uma linguagem tão transcendente que deixou Nannerl toda arrepiada, e mesmo parecia que aquelas notas emitidas pelo violino entrelaçavam a sua língua, como se ela quisesse solfejar e beijavam todo o seu corpo, como se tivessem a intenção de unir Nannerl e aquela melodia em um único ser etéreo. Nannerl tocava com uma emoção e de uma maneira que era incapaz de conter. Em um crescendo, aquela música cresceu, cresceu até que no rompante de um dó lhe penetrou tão profundamente que a garota involuntariamente soltou um gemido. Contudo, nenhum dos espectadores atentou para tal gemido porque a própria música gemia, gemia, gemia. A música de tal modo emocionou e tocou a todos que ninguém notou que dos ouvidos de Nannerl saíam as borboletas que antes embrulhavam seu estômago: eram borboletas pequeninas que tinham uma asa em formato de clave de sol e outra asa em formato de clave de fá. Elas voavam em direção ao mundo dos sons! 
Maior do que a penetração física foi a penetração daquela música na alma de Nannerl, era tão forte que lágrimas caíram intensamente, como as de um bebê que chorava depois de nascer. Não eram apenas lágrimas de tristeza, eram lágrimas que expeliam todas as emoções que a menina sentira em toda a sua vida até então. A música tirou todas as vestes que Nannerl tinha usado para cobrir e fechar o seu interior: agora sua alma estava completamente nua e exposta para o mundo. 
Era tudo tão divino e chegou a um êxtase tão maravilhoso que Nannerl chegou a pensar que iria morrer naquele instante para renascer na forma daquela música! Tocou e tocou a música até se despedir dela em um abraço lacrimoso com a mais sincera afeição, pois tanto os beijos quanto as canções têm um acorde final. Sem fôlego, Nannerl abriu os olhos com a expressão de quem finalmente havia redescoberto o que é o amor.


domingo, 19 de abril de 2015

O ser e a arte

Se a vida está em preto e branco
a arte lhe colore
Um cinza pálido pode virar um cinza vivo e franco
ou mesmo uma cor desconhecida que se enamore
de uma gota de orvalho,
de um refugiado espantalho
ou de um graffite que no muro more.

Como se falou na cor desconhecida enamorada
Ela passou a existir, com seus 3 amantes
Mas quem ela escolheu para juntar a sua alma
Foi a arte que fez do muro sua morada
de pão alado em seu semblante
De sereia Yara com sua aura
De arte avante!

A cor desconhecida enamorada
Quis deixar de ser um mero ser de cor
Para ser arte, ser amor,
Ser algo maior que a transcendesse, e que arde
Nos olhos de quem passa era sua escolha de liberdade
Paradoxal. Ser cor desconhecida e ser arte!

O pincel da arte
Transforma o efêmero em eterno
O banal em contemplativo
A amante imaginária em Scheherezade
O frio no inverno
de Vivaldi
E pequenas decepções em livros
Imunes ao passar do tempo
Em si próprios, um templo.

O artista e a arte
A arte e o artista
Será que por algum momento
O músico é a música que cria?
Ou o pintor, a expressão que sorria?
Ou o poeta, a rima que chora?
Ou o escritor, o parágrafo que implora?
Ou o cineasta, a cena que sufoca?

Como distinguir a bailarina da sua dança?
Ou mesmo a garota de sua arte de sonhar com esperança
Ou mesmo o jovem que enquanto
Admira uma pintura, o faz de tal forma
Que os sentires de encanto
Permitem que ele a viva e sinta com gosto de amora
A brisa das pinceladas de outrora

Se em nossa humanidade
Apenas temos a arte
Em toda a sua diversidade
Para transcender a vida
Então aonde se é
E aonde se é arte?

A artista faz sua arte
Respira sua arte
Vive sua arte
Até se tornar sua arte
E então voa
Para além de qualquer conceito humano
verbalizável,  para além de sua substância
Inefável.
Ela não deixará que limitem suas asas
Em nenhum plano
E com gosto de infância
Ela abraça a cor desconhecida
Que se tornou a expressão eterna da vida
Que todos carregam porque assim
Foi que a metáfora quis.

terça-feira, 6 de maio de 2014

O sol e a pedra no meio do caminho



Sol. Sol. Sol. Todos querem um lugar ao sol.
Faltava pouco para o céu de baunilha.
Monet, talvez estivesse se aprontando.

Não estava em busca do sol .
Apenas estava seguindo o curso da vida.
Da vida em sua rotina de plano. 

Ao segurar as rédeas,
que apenas comandava
no limite de sua humanidade,
as vontades sérias
de fazer afastar o sol mala
lhe veio sem niilidade.

Mas o sol se aproximava cada vez mais
E lhe tirou sua visão.
O sol lhe abraçou em toda sua plenitude,
e naquele amplexo de luzes fatais,
paradoxalmente estava no céu e no chão,
ao mesmo tempo. Na ineptitude
de sua inexperiência e de sua juventude
foi arrastada sobre a pedra no meio do caminho.
Foi dilacerada, praticamente destruída.
E sem um bom vinho.
Qual seria o juízo de um druida?  

Seguia para o caminho do aprendizado  
do ofício de transformar vida em arte.
E como em um triste fado,
Graças aos olhos de sol lato
a pedra no meio do caminho
se tornou invisível
e por isso, intransponível.

A pedra lhe trespassou o coração
O sangue caído
não
permitiu que o caminho fosse seguido
pelo menos por aquela tarde e noite
de chuva e vento doído
de contrato não cumprido
e de milhões de açoites.

Ofuscada pelo sol,
Estraçalhada pela pedra.
Como presa a um anzol,
 jogada a uma fera.
Foi sangrando, procurar
Carlos Drummond de Andrade
E o poema fecundo
a lhe acariciar
foi o “ os ombros suportam o mundo:

“ [...]As guerras,as fomes, as discussões dentro dos edifício
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda[...]”

E então, a discussão sobre pedras no caminho
e corações ensanguentados
Encontrou uma luz, que não era a do sol.  

quarta-feira, 13 de março de 2013

Peso

O peso de suas lágrimas
Sobre os ombros
O eixo de suas lástimas
Fortes assombros

Peso da culpa
à alma, multa.

Mesmo vindo
do inevitável
AN' AI'KH indo
dilacerar a alma
Até o ponto desta
deixar de ser humana
para ser uma fresta
do sentir que emana
Ela não sabe se deve pedir desculpa
Mas mesmo assim chora enquanto
o remorso, árvore frondosa e manto
de muitos galhos e raízes, dislacera seu coração,
alma e entranhas encharcadas do sabor da culpa.
Usando xingamentos a si própria como se fossem uma oração.
e assim a forte culpa,
uma lança abstrata
a atravessar sua alma
e que então, mata
algo de seu ser e se exalta.

O peso
do qual se tem e não se tem culpa
O peso
que causa a morte em um mundo abstrato
O peso
Uma interna grande e inglória luta
O Peso
Dilacera apenas mostrando os fatos

Ela morre, ela vive, ela renasce
o peso a mata e o julgamento final
transcendente ao mundo, faz-se.
Ela atravessa o sentimento brutal
Eis uma cicatriz de sua alma atonal
a dar-lhe sangue e ao final
refazer-se em um novo ser
sem nunca se livrar completamento do peso
eis seu fardo: será sempre lembrado momento.
Mas como novo ser
aprende com ele a conviver.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O lado escuro do arco-íris


Dorothy caminhava e caminhava pelo seu lar, como se cada passo fosse sua representação no estar-mundo: uma prova invisível de que sua alma estivera ali. Em seu sorriso avoado, acabou topando com o espelho novo da sala. Com um ar pensativo vislumbrou aquele rosto que agora tinha 22 anos. Olhou de uma maneira tão questionadora ao espelho como se quisesse que ele respondesse quem era ela e quem era ela perante esse mundo e perante sua própria vida. Com olhos de aurora, ela voltou a dançar a dança da silenciosa atmosfera de seu lar, enquanto pensava na vida. 
Ela sempre desejara ir além do arco-íris. Ir além das imposições do mundo e alcançar a liberdade plena, o vôo pleno e a transcendência que ela tanto almejara. Talvez o passar dos anos junto com o traço de natural desilusão que eles dão, deturpou um pouco aquela metaforizarão do arco-íris, mas o desejo de ir além dele nunca deixou de pertencer ao seu ser. 
Ela chegava a acreditar que só seria plena e feliz quando conseguisse atravessar o arco-íris, por mais difícil que isto parecesse.
Após um dia de calor, um dia chuvoso e com sol se sucedeu: era o casamento da raposa. E nesse dia o arco-íris lhe aparentou maior e mais próximo do que todos os demais dias de sua vida.
A princípio ela achou quase infantil aquele seu enorme desejo de ir além do arco-íris, os anos que ela ganhara zombaram daquela idéia. Mas mesmo assim, ela decidiu começar a andar em sua direção. De repente, ela vislumbrou uma raposa vestida de noiva indo em direção ao altar de uma igreja feita da árvore que era filha da Amazônia com a seriedade do espírito humano. Era uma igreja que era ao mesmo tempo de madeira, um tronco enorme em forma de igreja ao mesmo tempo em que era de uma arquitetura que parecia uma mistura da arquitetura gótica com a do Oscar Niemayer. Algumas folhas eram em forma de cruz, de ank, de Buda, de orixás e aparentemente havia folhas no formato do símbolo de todas as religiões. Havia até uma folha que só tinha contorno e nada dentro, representando os ateus. Também havia folhas em forma de símbolos da ciência, da música, da política e de todas as criações humanas que pudessem ser seguidas como se fosse uma religião. Aquelas folhas institucionalizavam aquela instituição. Antes de entrar na igreja e escapar do alcance de sua visão, a  raposa olhou com olhos formais para Dorothy e disse:
- Vai, corra atrás do arco-íris.
Naquele momento era como se Dorothy Waters ouvisse a sua própria voz humana e interna. Ela não sabia, mas naquele instante toda a humanidade queria em seu âmago correr atrás do arco-íris.
Dorothy Waters correu decidida a alcançar o arco-íris. Ela correu, correu. Correu até tornar-se indiferente ao tempo, as vias, à sociedade e a todas as outras coisas que não fossem seu objetivo. Ela correu apenas pensando naquilo, no atravessar do arco-íris. Sem perceber, ela atravessou as horas, os dias, os limites dos territórios e qualquer instituição e sistematização que estivessem a sua frente. Ela atravessara rios, montanhas, religiões, partidos políticos, salas de aulas, escritórios de trabalho e até mesmo as relações sociais. Correu até que incapaz de calcular quanto tempo ou quilômetros tinha percorrido, ela finalmente alcançara o arco-íris. Finalmente sentiu-se prostada e feliz de uma maneira que parecia irreal ao chegar ao outro lado, ao fim do arco-íris.
Ela ficou impressionada com aquela grandiosidade em raiz coloridos. Ela estava toda iluminada do colorido de sua felicidade. Mas no final do arco-íris não havia um pote de ouro como as lendas acreditavam, nem exatamente o que a humana mente de Dorothy Waters imaginava de plenitude: havia o lado escuro do arco-íris.
Quando se atravessa o arco-íris, sempre se encontra o lado escuro do arco-íris, apesar de que alguns que o alcançaram decidiram simplesmente ignorar o lado escuro do arco-íris e não ganharam nenhuma luz de sabedoria em sua jornada até ali. Mas Dorothy não podia ignorar esse lado e, sem perceber, ele a abraçou. Nesse lado escuro Dorothy percebeu que aquela escuridão era a metáfora de seu não-ser e de todas as limitações de sua condição humana. Ele a fazia sentir tão humana que chegava a um ponto que não dava mais para fugir dele e posteriormente, ela tornava-se parte dele. Ele, como se fosse um buraco-negro, absorvia o seu colorido e a sua luz branca que se dividia em 7 diferentes estágios e transformava a tudo em seu breu.
Ele a acorrentava com correntes feitas com a própria fragilidade dela. Ela era obrigada a encarar que era uma humana, nada menos que uma humana e jamais seria mais que uma humana. Por mais extraordinários que seus feitos pudessem ser, por mais impressionante que seja atravessar o arco-íris e por mais transcendência que ela conseguisse em sua vida, ela estava condenada a jamais ser mais do que ela mesmo, do que um ser humano. Naquele breu não havia muita diferença entre as idéias de glória e invisibilidade social, nem entre o tudo e o nada. No lado escuro do arco-íris se chegava a visão de algo maior, como se fosse o ponto de vista do próprio universo e então todas as vidas humanas e mesmo o planeta terra pareciam apenas poeira ao vento incomensurável do universo. Ao mesmo tempo em que naquele mesmo ponto de vista, cada pequeno ato de humanidade ganhava uma nova e iluminadora importância. Um aperto de mão não era só um aperto de mão, era um sinal de igualdade, fraternidade e respeito perante duas vidas. Era um sinal de mútuo contemplamento à maravilhosa graça de viver. Um abraço era um laço eterno que juntava duas almas. Um sorriso verdadeiro era um sol que cativava a atmosfera alheia. Uma briga podia ser tanto um cortar de laços quanto algo que provia de um lado inverbalizável da natureza humana.
Dorothy sabia que paradoxalmente estaria para sempre sozinha e acompanhada ao mesmo tempo. Sozinha posto que sua individualidade é inviolável e ninguém, por mais que ela amasse, poderia percorrer todos os caminhos que a faziam ser ela, tendo a individualidade plena algo de inalcançável. Acompanhado porque mesmo nos momentos de maior solidão, ela estaria acompanhada por alguém pensar nela ou mesmo pelo espírito de alguém que a amou ou mesmo por algo que ela acredita que invisivelmente a acompanha - o que uns acreditam ser Deus; outros, uma força; outros, a música, entre outras derivações.
Ela sabia que uma só flor podia conseguir florescer todo um jardim da vida e uma só tesoura, cortar todos os laços. 
Em um determinado momento que pode ter durado um segundo ou todo um completar de existência ela sentiu o beijo do lado escuro do arco-íris e lhe invadiu as lembranças e o sentir de tudo o que havia tocado, todos os abraços que tivera dado, todos os beijos que havia beijado, tudo o que havia sentido, tudo o que havia visto e tudo o que havia percorrido em sua vida. Em tudo o que ela pensou em sua estrada e até no que ela deixou de ver e que agora sentia.
O lado escuro lhe concebeu toda uma epifania. Uma epifania que como se fosse uma morte transpassou todo o seu corpo de uma sensação tão intensa e tão humana que sentiu todo o seu ser morrer com aquele tão alto grau de excitação dos sentidos. Ao mesmo tempo em que como um renascer ela sentiu todas suas feridas morais se curarem e que de algum modo nascia de novo, como um novo ser dela mesma. Por um momento, ela sentiu-se como aquele que se deitou em um leito de liberdade e nunca mais voltou ao mundo dos homens. Ela estava livre de todas as imposições humanas. Quase uma plenitude de liberdade que era apenas limitada pelas suas próprias limitações. Ela viveu um lapso de etéreo.
Mas a crueza do mundo e a própria saudade a fez abrir novamente os olhos. Por mais que se sentisse  plena em sua solidão e quase-encontrada liberdade, ela precisava voltar ao seu lar. E consequentemente para as restrições mundanas. O lado escuro do arco-íris a libertou de si mesmo, ao mesmo tempo em que era acorrentada ao mundo conforme ela voltava a este. Ela sabia que iria que ter encarar e enfrentar a crueza terrestre e estava disposta a ter sua liberdade diminuída para voltar ao lar.
Seus sapatos vermelhos cintilam e mais uma constelação se forma no céu.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Linhas - parte 1

A linha que separa os vivos dos mortos
A linha que separa a miséria e as odes
A linha que separa a plebe dos poderosos
A linha que separa os fracos dos  fortes

A linha que se atravessa ao nascer
A linha que se atravessa ao primeiro beijo
A linha atravessada a cada deitar no leito
As diversas linhas atravessadas no viver
A linha de cada ano, de cada amanhecer

Linhas impostas
Linhas encontradas
Linhas a mostra
Linhas achadas 

Primeiro dia de colégio
Último dia de colégio
Primeiro dia de faculdade
Último dia de faculdade
Primeiro dia de trabalho

Primeira ilusão
Primeira decepção
Naufrágio de ilusão
Sentir da paixão.
Os que não estão no baralho

Primeira música
Contemplar da alma lúcida
Livros a vivermos
Experiências sim e não a esmo
Determinação indeterminada de horário

Amizade
Idade
Realidade
Fatalidade
A vida tecendo seu rosário

sábado, 22 de dezembro de 2012

Realidade alterada


Da batida, o coração.
Da vida, a sensação.
Do sentir, a perdição.
Do porvir, a indagação. 

Da fumaça, o paraíso artificial.
Do ar, o respirar divinal.
Do faça, o descobrir essencial.
Do mar, o canto final. 

Da irrealidade, a realidade.
Do inexistir, o existir.
Da fatalidade, a facada.
Do si, o mi. 

Sobre as areias, a condição humana.
Além da água, a imensidão que emana.
Do amplexo, o torpor envolvente.
Sob as estrelas, o fim sem gente.